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Reação álcali-agregado: por que adições ricas em sílica seguram os álcalis

O que é a RAA, como sílica ativa, metacaulim, cinza volante e escória a mitigam pelo C-S-H de baixa relação Ca/Si, por que não existe teor universal e como a NBR 15577 manda provar a mitigação com o cimento e a adição da obra.

Ilustração esquemática de um agregado reativo em pasta de cimento, com álcalis sendo retidos pelo gel de C-S-H.

Toda​​ barragem, bloco de fundação ou pavimento de concreto que abre fissura em mapa depois de alguns anos levanta a mesma suspeita: reação álcali-agregado. A RAA é lenta, silenciosa e, depois de instalada, não tem cura simples. Por isso a conversa útil acontece antes da primeira betonada, na escolha do agregado, do cimento e da adição.

Três condições, um gel

A forma mais comum é a reação álcali-sílica. Ela precisa de três coisas ao mesmo tempo:

  1. Agregado com sílica reativa — sílica pouco cristalina ou deformada, que se dissolve em meio muito alcalino.
  2. Alcalinidade alta na solução dos poros — sódio e potássio, vindos sobretudo do cimento, sustentam um pH muito elevado e muita hidroxila disponível.
  3. Umidade — sem água o gel não se forma nem incha.

A hidroxila ataca a sílica do agregado; sódio, potássio e cálcio entram na estrutura e forma-se um gel álcali-silicoso. Esse gel absorve água e expande dentro do agregado e na zona de transição. A pressão fissura o agregado e a pasta. No elemento aparecem fissuração em mapa, exsudação de gel, deslocamentos e perda de rigidez. Rajabipour e colaboradores (2015) lembram que vários passos desse mecanismo ainda são debatidos; o que é consenso é que tirar qualquer uma das três condições interrompe o processo.

Na prática, umidade não se controla em fundação ou barragem, e agregado é o que a região oferece. Sobra a química da pasta. É aí que entram as adições.

Como a adição mitiga

Três efeitos atuam juntos:

Diluição. Trocar parte do cimento por uma adição de baixo teor de álcalis reduz o álcali total que entra no concreto. É o efeito mais simples, e sozinho não explica o desempenho das adições mais eficazes.

Retenção de álcalis pelo C-S-H de baixa Ca/Si. A reação pozolânica consome portlandita e forma C-S-H adicional, com relação Ca/Si mais baixa que a do C-S-H do cimento puro. Richardson (2008) mostra que a estrutura do C-S-H varia com essa relação e que, com Ca/Si menor, a cadeia de silicatos fica mais longa e a superfície carrega mais sítios capazes de reter cátions. Hong e Glasser (1999) mediram isso diretamente: a capacidade do C-S-H de fixar sódio e potássio cresce à medida que a relação Ca/Si cai. Álcali preso no hidrato não está na solução dos poros, e a solução fica menos agressiva.

Queda de pH e de portlandita. Com menos hidroxila livre, a dissolução da sílica do agregado desacelera. Com menos portlandita e cálcio disponível, muda também a composição do gel que se forma e sua capacidade de expandir. A adição ainda refina os poros e reduz a mobilidade dos íons e da água.

O ponto central: não basta “ter adição”. O que mitiga é a sílica reativa da adição transformada em C-S-H pobre em cálcio, em quantidade suficiente para baixar a alcalinidade dos poros abaixo do que o agregado tolera.

Por que não existe teor universal

A revisão de Thomas (2011) organiza as tendências que a literatura e a experiência de campo mostram:

  • Sílica ativa e metacaulim são muito reativos e ricos em sílica (no metacaulim, também em alumina). Costumam ser eficazes em teores de substituição relativamente baixos.
  • Cinza volante varia muito. A de baixo cálcio (classe F) tende a ser bem mais eficaz que a de alto cálcio (classe C). Shehata e Thomas (2000) mostraram que, à medida que sobem o CaO e os álcalis da cinza, sobe o teor necessário para controlar a expansão.
  • Escória de alto-forno tem mais cálcio que as pozolanas e, em geral, precisa de teores de substituição mais altos para o mesmo efeito.

E o teor necessário não depende só da adição. Depende da reatividade do agregado, do teor de álcalis do cimento, do consumo de cimento por metro cúbico e de álcalis que venham de outras fontes. A mesma cinza que resolve com um cimento de baixo álcali e um agregado moderadamente reativo pode não bastar com um cimento mais alcalino e um agregado mais reativo. Copiar o teor de uma obra para outra é transferir a conclusão sem transferir as premissas.

A prática brasileira: NBR 15577

A ABNT NBR 15577 trata a RAA em partes. Duas importam aqui:

  • NBR 15577-1:2018 — o guia. Classifica o agregado quanto à reatividade, avalia o risco conforme as condições de exposição e o tipo de estrutura e define a intensidade das medidas preventivas. Entre as medidas está o uso de materiais que mitiguem a reação, com eficácia comprovada por ensaio.
  • NBR 15577-5:2018 — o ensaio que comprova a mitigação. É o método acelerado em barras de argamassa: barras moldadas com o agregado da obra e com o aglomerante proposto (cimento + adição) são imersas em solução alcalina em temperatura elevada, e a expansão é medida ao longo dos dias. O resultado é comparado ao critério da NBR 15577-1.

O detalhe que faz a diferença: o ensaio vale para a combinação ensaiada. Comprova-se a mitigação com o cimento e a adição que vão de fato para a obra, no teor proposto, com o agregado da obra. Mudou o cimento, a fonte da adição ou a jazida, o resultado anterior deixa de valer como prova.

Checklist para a obra e o controle tecnológico

  1. Agregado caracterizado. Há laudo de reatividade da jazida que está sendo usada, e é recente?
  2. Risco avaliado. A estrutura foi enquadrada pela NBR 15577-1 (exposição, umidade, porte, consequência de dano)? A intensidade de prevenção está registrada?
  3. Aglomerante definido e congelado. Tipo e fabricante do cimento, origem e tipo da adição, teor de substituição.
  4. Mitigação comprovada. Há ensaio NBR 15577-5 com essa combinação exata de cimento, adição e agregado, com resultado dentro do critério?
  5. Rastreabilidade de insumos. O cimento e a adição entregues são os mesmos ensaiados? Nota fiscal e certificado de cada lote conferidos?
  6. Gatilho de reensaio. Troca de cimento, de fonte de adição ou de jazida exige novo ensaio antes do uso, não depois.
  7. Álcalis de outras fontes. Aditivos, água e agregados contaminados entram na conta quando o risco é alto.
  8. Registro. Laudo, traço e lotes arquivados junto à rastreabilidade das concretagens: se um dia aparecer fissura, a investigação começa com dados.

Uma pergunta em aberto

O ensaio acelerado em barras de argamassa é rápido e reprodutível, mas condições severas encurtam o tempo e mudam a química. Até que ponto poucas semanas numa solução alcalina quente representam décadas de um bloco úmido de fundação? É por isso que se discutem ensaios de prisma de concreto, mais lentos, e monitoramento de campo. Enquanto essa ponte não estiver bem construída, a prudência é ensaiar a combinação real, com margem, e tratar mudança de insumo como mudança de projeto.

Referências

  1. Hong, S.-Y.; Glasser, F. P. Alkali binding in cement pastes. Cement and Concrete Research, v. 29, n. 12, p. 1893–1903, 1999. DOI: 10.1016/S0008-8846(99)00187-8.
  2. Thomas, M. The effect of supplementary cementing materials on alkali-silica reaction: A review. Cement and Concrete Research, v. 41, n. 12, p. 1224–1231, 2011. DOI: 10.1016/j.cemconres.2010.11.003.
  3. Richardson, I. G. The calcium silicate hydrates. Cement and Concrete Research, v. 38, n. 2, p. 137–158, 2008. DOI: 10.1016/j.cemconres.2007.11.005.
  4. Shehata, M. H.; Thomas, M. D. A. The effect of fly ash composition on the expansion of concrete due to alkali–silica reaction. Cement and Concrete Research, v. 30, n. 7, p. 1063–1072, 2000. DOI: 10.1016/S0008-8846(00)00283-0.
  5. Rajabipour, F.; Giannini, E.; Dunant, C.; Ideker, J. H.; Thomas, M. D. A. Alkali–silica reaction: Current understanding of the reaction mechanisms and the knowledge gaps. Cement and Concrete Research, v. 76, p. 130–146, 2015. DOI: 10.1016/j.cemconres.2015.05.024.
  6. ABNT. NBR 15577-1:2018 — Agregados — Reatividade álcali-agregado — Parte 1: Guia para avaliação da reatividade potencial e medidas preventivas para uso de agregados em concreto.
  7. ABNT. NBR 15577-5:2018 — Agregados — Reatividade álcali-agregado — Parte 5: Determinação da mitigação da expansão em barras de argamassa pelo método acelerado.