
Um concreto pode fissurar sem perder água para o ambiente. Em traço de relação água/cimento baixa, a hidratação consome a água dos poros, a umidade relativa interna cai e a pasta se contrai. Essa contração é a retração autógena. Ela ocorre mesmo quando não há perda de água para fora.
A autodessecação
A água que a hidratação consome é a água dos poros. Com menos água livre no interior, a umidade relativa da pasta desce. Esse abaixamento, sem troca com o ar de fora, é a autodessecação. A pasta se contrai. Não é preciso evaporação, vento nem uma face desprotegida. A reação basta.
Uma peça protegida da secagem ainda pode encolher. Quem só mede a água que saiu para o ambiente não vê esse mecanismo.
O alcance da cura externa
A cura externa molha a superfície ou impede que ela perca água. Em matriz muito fechada, a água de fora penetra pouco. O interior segue a autodessecação quase sem esse suprimento.
Ainda assim a cura externa continua obrigatória. Ajudar pouco, nesse traço, não a dispensa.
A cura interna com SAP
Jensen e Hansen (2001) formularam o princípio do concreto water-entrained. Um polímero superabsorvente, o SAP, absorve água no amassamento e forma macroinclusões cheias de água, espalhadas na massa. Essas inclusões alimentam a pasta e evitam a autodessecação. A água de cura já está distribuída no interior. É cura interna.
Jensen e Hansen (2002) dão continuidade ao mesmo trabalho, na parte II, com observações experimentais.
Na prática
- Incluir a retração autógena no estudo de dosagem do concreto de alto desempenho. O estudo que só fecha resistência e consistência não vê a contração que um traço de relação água/cimento baixa pode ter sem secar para fora. A retração autógena entra nesse estudo, com os materiais que vão para a obra.
- Manter a cura externa. A cura interna não a substitui. A água de fora penetra pouco, e a cura da superfície continua obrigatória.
A fissura de um concreto de relação água/cimento baixa nem sempre é água que evaporou. Pode ser a pasta que a própria hidratação secou por dentro.
Referências
- Jensen, O. M.; Hansen, P. F. Water-entrained cement-based materials: I. Principles and theoretical background. Cement and Concrete Research, v. 31, n. 4, p. 647–654, 2001. DOI: 10.1016/S0008-8846(01)00463-X.
- Jensen, O. M.; Hansen, P. F. Water-entrained cement-based materials: II. Experimental observations. Cement and Concrete Research, v. 32, n. 6, p. 973–978, 2002. DOI: 10.1016/S0008-8846(02)00737-8.